As lesões nos Isquiotibiais

Sabia que as lesões nos músculos posteriores da coxa (Isquiotibiais) são uma das lesões mais comuns nos desportistas e que apresentam uma elevada taxa de recorrência?

No atletismo e no futebol, as lesões na face posterior da coxa representam 17 a 21% do total de lesões, estimando-se que aproximadamente 22% de todos os jogadores de futebol sofram uma destas lesões por época. 

Também na dança existe uma incidência muito elevada deste tipo de lesão.

As lesões nos Isquiotibiais implicam, em média, 24 dias de ausência da prática desportiva, representando elevados custos para os clubes e para os próprios atletas.

Estas lesões podem ir desde estiramentos musculares, a roturas parciais ou completas ou a tendinopatias.

Os estiramentos são os mais frequentes e apresentam uma elevada taxa de recorrência.

Alguns estudos estimam que cerca de 1/3 dos atletas que sofre uma lesão nos Isquiotibiais irá sofrer uma recidiva e que na maioria dos casos essa ocorre nas primeiras duas semanas do regresso à atividade desportiva. Este dado alerta para o perigo de um regresso precoce à prática desportiva ou de um processo de reabilitação desadequado.

Nas lesões por estiramento podem-se identificar dois mecanismos lesivos predominantes. No tipo I, o estiramento ocorre durante a corrida a alta velocidade no momento em que os músculos contraem excêntricamente para desacelerar o movimento da perna e preparar o contato do pé com o solo, sendo mais comum a lesão na longa porção do Bicípete Femoral (união miotendinosa).

As lesões por estiramento do tipo II ocorrem em situação de excessivo comprimento, sendo mais comum em atividades como a dança ou no futebol num corte lateral ou no remate, envolvendo mais frequentemente a zona proximal do tendão do Semimembranoso, próximo da tuberosidade isquiática. As recuperações deste tipo de lesão são, geralmente, mais demoradas que as do tipo I.

As lesões dos Isquiotibiais por estiramento podem ainda ser classificadas em função da dor, fraqueza ou perda de amplitude de movimento. Assim:

  • nas lesões de grau Inão existe perda de força ou de função ou existe perda mínima. Carateriza-se ainda pela perda mínima da integridade estrutural e pela resposta inflamatória de baixo grau
  • no grau II, existe rutura incompleta ou parcial com perda moderada de força. Pode existir edema hematoma
  • no grau III é uma lesão mais severa com rutura completa perda significativa da funcionalidade.

As tendinopatias proximais são menos frequentes mas ocorrem sobretudo em sprinters ou corredores de média / longa distância. 

Podem apresenta-se como uma condição crónicadegenerativa, decorrente da sobrecarga estiramento repetidos. Os fatores que normalmente estão associados a esta condição são o overuse, a falta de estabilidade lombo-pélvica e a fraqueza dos Isquiotibiais, sendo o tendão do Semimembranoso normalmente o mais afetado. Em muitas situações, existe também irritação do nervo ciático pelas aderências ou tecido cicatricial que pode existir junto ao nervo.

Diagnóstico 

Conhecer a história do atleta e fazer uma boa avaliação são fatores determinantes para a recuperação de uma lesão nos Isquiotibiais. 

Importa desde logo despistar outras condições que podem provocar dor referida para a região posterior da coxa como por exemplo a coluna lombar, a anca e a articulação sacroilíaca.

No caso dos estiramentos, os atletas descrevem normalmente uma dor aguda, uma pontada, de início súbito. É um relato frequente o atleta dizer que ouviu um “estalinho” e que é incapaz de continuar a prática desportiva. Mesmo ao caminhar podem apresentar limitação ou desconforto.

Nos estiramento de grau II ou III pode ser visível equimose abaixo do local da lesão que pode aparecer apenas uns dias depois da lesão ter ocorrido.

Em termos de exames complementares a radiografia pode-se justificar se houver suspeita de avulsão da tuberosidade isquiática. Tanto a ecografia como a ressonância magnética são efetivos para identificar avaliar localização extensão da lesão, o que pode ser uma mais valia.

Nas tendinopatias, os atletas normalmente não identificam um momento específico para o início da dor (aumento gradual). A dor é descrita como rigidez ou cãibra próximo da tuberosidade isquiática que pode estender-se até à zona posterior do joelho. A dor nestes casos aumenta normalmente com contrações excêntricas repetidas, com a flexão do tronco,  a corrida ou com a posição de sentado.

Em termos de exames complementares tanto a ecografia como a ressonância magnética podem ajudar no diagnóstico.
 

Tratamento

Os dois grandes objetivos do plano de recuperação são o regresso do atleta à prática desportiva com o mesmo nível de performance que tinha antes da lesão e a redução do risco de recidiva.

Nos estiramentos, numa primeira fase, o foco está na redução da dor e edema, na prevenção da formação de tecido cicatricial excessivo, no desenvolvimento do controlo neuromuscular a velocidade reduzida, evitando posições de alongamento excessivo. Atualmente sabe-se que se deve evitar a toma de anti-inflamatórios não esteróides porque além de não se demonstrar que possam ser benéficos podem ainda prejudicar o processo de reparação tecidular. Nas lesões mais severas, pode nesta fase ser necessário o uso de canadianas.

Logo que o atleta já consiga caminhar sem dor pode haver um aumento na intensidade, velocidade e da amplitude de movimento durante os exercícios, introduzindo a contração excêntrica e progredindo para gestos e necessidades específicas da sua atividade desportiva.

Os critérios para regressar à atividade desportiva incluem a ausência de dor à palpação na zona da lesão, força máxima concêntrica excêntrica sem dor, ausência de medo ao movimento e capacidade para realizar movimentos específicos da sua modalidade a velocidade máxima sem dor.

 

Agora o primeiro passo tem de ser seu… Se sentes dor na face posterior da coxaagende a sua sessão.

 

Fontes:

  • Samuel K. Chu, MD; Monica E. Rho, MD. -Hamstring Injuries in the Athlete: Diagnosis, Treatment, and Return to Play. Curr Sports Med Rep. 2016 ; 15(3): 184–190.
  • Adam Danielsson, et al. -The mechanism of hamstring injuries – a systematic review. BMC Musculoskeletal Disorders (2020) 21:641.
  • Lauren N. Erickson, Marc A. Sherry. Rehabilitation and return to sport after hamstring strain injury. Journal of Sport and Health Science, Volume 6, Issue 3, September 2017, Pages 262-270.