Impacto da Covid-19 na saúde mental das crianças!

A Covid–19 assumiu um enorme impacto na saúde mental das crianças.  Esta pandemia provocou diversos efeitos à escala mundial tais como o impacto económico e a crise social daí decorrente, com o aumento do desemprego, das dificuldades das famílias e todo o stress associado.

Contudo, dada a complexidade dos vários fatores implicados neste fenómeno, é expectável que, no decurso dos próximos anos, se venham a evidenciar outros aspetos do impacto da pandemia. Estudos mais exaustivos indicam um claro impacto da Covid-19 na saúde mental das crianças, no seu desenvolvimento e no seu comportamento.

Existem já alguns dados referentes à população infantil que demonstram evidências de que as crianças podem ser negativamente afetadas pela pandemia, podendo apresentar medo, ansiedade, stress, desânimo, tristeza, preocupação excessiva, raiva, alterações no sono, inquietude, irritabilidade, sentimentos de desamparo, dependência excessiva de familiares, distração e alterações no comportamento, nomeadamente acting out como oposição ou agressividade.

Estas alterações têm sido, aliás, verificadas em outros momentos difíceis da História. Crises e recessões económicas evidenciaram que as crianças, como grupo especialmente vulnerável, são afetadas na sua saúde mental, seja devido às próprias alterações no comportamento dos pais, seja devido à sua limitada capacidade de elaboração acerca do que se passa à sua volta.

Num contexto altamente atípico, as crianças viram-se forçadas a lidar internamente com questões extremamente difíceis, tais como o stress e inquietação dos seus pais. As exigências da conciliação entre teletrabalho e assistência aos filhos ou o recente desemprego e incerteza quanto ao futuro, a par com a exigência do ensino à distância que impediu o normal acompanhamento e suporte por parte dos professores, obrigou, em muitos casos, a uma sobrecarga no trabalho autónomo das crianças e que foi sentido como ameaçador e de difícil gestão.

O ensino à distância tornou-se uma realidade.

Por outro lado, o distanciamento social a que também foram sujeitas e a privação de contatos com pessoas significativas como, por exemplo, os avós, também acarretaram elevado sofrimento emocional. Mesmo no regresso às aulas presenciais as divisões nos recreios, as restrições ao brincar normalmente com os amigos, a pressão para não serem veículos de transmissão de um vírus invisível, são aspetos que pesam fortemente no interior das crianças.

O regresso às aulas presenciais fez-se com inúmeras alterações e novas regras.
Covid-19 na saúde mental das crianças

Alterações nas crianças

Há evidências de uma maior dependência de aparelhos eletrónicos desde os confinamentos. Um facto que acarreta diversas consequências:

  • alterações na linguagem,
  • vocabulário pobre e restrito
  • ausência total de linguagem verbal
  • alterações na pronúncia em crianças em fase de aquisição da linguagem (devido ao elevado número de conteúdos disponíveis em português do Brasil, em plataformas como o Youtube)
  • interferência em tarefas académicas ou outras
  • maior isolamento social
  • risco aumentado de cyberbullying
  • exposição a conteúdos impróprios de natureza violenta ou cariz sexual
  • risco aumentado de abuso sexual.

 

A experiência de perdas traumáticas, como morte de familiares ou pessoas significativas ou mesmo a mera exposição a notícias constantes sobre as mortes provocadas pela COVID-19 são aspetos que precisam de especial atenção.

 

Assim, é importante que todos os adultos que privam com crianças, desde pais, profissionais docentes e não docentes, de saúde, etc. percebam que, devido à imaturidade do seu sistema nervoso central, às limitações na sua capacidade de processamento e elaboração cognitiva e à escassez de uma linguagem fina e desenvolvida, as dificuldades sentidas pelas crianças são reais, mesmo que muitas vezes não se percebam de imediato ou que a criança esteja aparentemente bem. (colocar este texto destacado dentro de um quadrado)

 

É por isso necessário um olhar atento e disponível para ler nas entrelinhas do que é dito, mas também do que não é dito, mas que vai surgindo nas brincadeiras, nos medos ao deitar, nas alterações do comportamento alimentar, na apatia ou, pelo contrário, na crescente rebeldia ou birras constantes.

 

A frase “ele ainda é pequeno, não percebe” não pode ser mais desadequada. As crianças percebem tudo – à sua maneira – uma maneira mais simples, auto-focada, uma maneira “mágica” ou fantasiosa, muitas vezes até mais ameaçadora do que a realidade.

 

Por isso, é essencial que se converse – muito – com as crianças, numa linguagem adaptada à idade e sem muitos detalhes, mas, sobretudo, com disponibilidade para ouvir as suas perguntas e ajudar a organizar as respostas.

Covid-19 na saúde mental das crianças

O que os Pais Podem fazer?

Conversar, dialogar abre a porta para o interior da criança. Essa é a primeira parte.

Depois, é preciso acolher as emoções, acolher os conflitos, acolher as angústias. É importante evitar frases como “não chores” ou “não penses mais nisso”. Em alternativa, podemos validar: “é realmente triste, é natural que tenhas vontade de chorar. Eu estou aqui contigo, não estás só. Também penso nestas coisas às vezes… é natural… mas depois lembro-me do quanto te amo e isso faz-me sentir melhor”.

 

Conversar, dialogar abre a porta para o interior da criança.

É importante que a rotina familiar inclua momentos de afeto e partilha. São os vínculos que nos salvam. A saúde mental das crianças depende da qualidade dos vínculos que se estabelecem com os pais, outros familiares, professores… É nestes vínculos seguros que a criança encontra o equilíbrio e a segurança para voltar a poder ser criança e brincar, explorar, ser curiosa e exprimir a sua alegria.

 

Queremos por isso mesmo também salientar que os adultos que cuidam de crianças também precisam de estar, eles próprios, bem cuidados.

 

Nas palavras de Tina Payne Bryson,

Se queres ser um porto seguro para os teus filhos, não podes ser a tempestade.”.

Ana Raquel Roseiro, Psicóloga