Põe Quanto és no Mínimo que Fazes

O desejo de ter um espaço próprio em Cantanhede começou há muitos anos atrás, ainda na altura do ensino secundário.

Quando terminei a licenciatura fiquei a trabalhar em Lisboa até dezembro de 2012, em contexto desportivo (futsal, Clube de Futebol “Os Belenenses” e Sporting Clube de Portugal) e em prática privada.

Estas experiências foram marcantes no meu percurso profissional porque em ambas era o profissional de saúde de 1º contato, com autonomia em todo o ciclo de intervenção o que me permitiu o desenvolvimento do raciocínio clínico e de uma prática de constante reflexão.

Em 2013, decidi regressar à minha terra (Cantanhede) e começar a projetar a criação do meu espaço. Regresso sem trabalho garantido, sem capacidade financeira para fazer um grande investimento (parto de Lisboa com vários ordenados em atraso e a minha mãe não tinha capacidade para me financiar), sem ninguém me conhecer enquanto Fisioterapeuta mas com vontade em manter os mesmo princípios de intervenção que tinha em Lisboa.

O facto de conhecer perfeitamente a localidade, as necessidades, as potencialidades, a “concorrência” deixavam-me optimista.

Inicialmente passei para o papel as minhas ideias, a minha visão da Fisioterapia, a minha proposta de valor e de diferenciação.

Como não tinha capacidade de investimento e tinha que minimizar os riscos, comecei por procurar um local que me permitisse ter uma “salinha” para começar a desenvolver o meu projeto.

Analisei os espaços e oportunidades existentes e pedi para ter uma reunião com o responsável de um ginásio local para poder apresentar o meu projeto. Propus-me a criar e implementar um gabinete de Fisioterapia gerador de receitas para o ginásio;

angariar novos sócios para o ginásio e oferecer um serviço diferenciador para os sócios já existentes sem qualquer investimento por parte deles. Porque haveriam de recusar??? Só estava a pedir uma sala e com a minha vontade e motivação faria o resto…

O ginásio cedeu-me uma sala onde pudesse implementar o meu “gabinete” o que foi muito vantajoso naquela fase por variados motivos: não tinha custos fixos (o ginásio recebia uma percentagem da minha faturação); investimento inicial reduzido (o ginásio já tinha marquesa pelo que apenas tive as despesas com o registo na Entidade Reguladora da Saúde, Seguros e com materiais consumíveis); tinha a possibilidade de usar todos os equipamentos do ginásio nas minhas sessões.

Depois de já ter o local, foi altura de começar a desenvolver estratégias que me permitissem “angariar/captar clientes”. Nunca em Cantanhede, tinha existido um Fisioterapeuta num ginásio, e a visão que as pessoas tinham da Fisioterapia era muito diferente da que eu propunha (trabalho individualizado, prática privada) o que levaria o seu tempo a ser aceite num meio tão pequeno que apenas conhecia o regime de Fisioterapia integrado numa unidade de MFR.

Comecei por realizar sessões de avaliação gratuitas, a comunicar/interagir com os professores do ginásio para que eles percebessem qual o meu papel e como poderíamos trabalhar em conjunto para benefício dos utentes, a divulgar o espaço nos meios de comunicação local e a estabelecer parcerias com os clubes desportivos locais (excelentes meios para o desenvolvimento da rede de contatos). Estabeleci ainda parcerias com IPSS’s onde dinamizei classes de mobilidade e de prevenção de quedas e organizei uma série de atividades para comemorar o dia mundial da fisioterapia.

Em paralelo e para ter maior presença e visibilidade fiz os meus próprios flyers, o meu próprio site e as minhas redes sociais. Olhando para trás, reconheço que de uma forma muito arcaica e sem grande conhecimento mas estava feito.

Como seria de prever, naturalmente, o crescimento e o retorno levou o seu tempo. Para terem ideia, no primeiro mês tive apenas uma sessão mas ao fim de 9 meses já tinha mais de 90 sessões por mês.

Passados 2 anos, a sala que tinha no ginásio já era pequena e senti necessidade de mudar para continuar o meu crescimento profissional, pessoal e do próprio negócio.

O projeto que tinha apresentado ao ginásio com a projeção do que eles iriam ganhar com as minhas sessões e com o número de clientes que se tornariam associados já tinha sido atingido e estava sem espaço para crescer.

Queria ter melhores condições de trabalho, melhorar o serviço prestado e ter oportunidade de acrescentar outros colegas e outros profissionais de saúde ao projeto.

Antes de dar este importante passo era necessário planear a mudança e desenvolver uma série de competências que iriam ser necessárias.

Além de ler o relato de outros colegas que já tinham percorrido estas etapas, participei num ciclo de conversas organizado pela Bwizer onde se abordaram as temáticas essenciais para quem estava a preparar a abertura de um gabinete. Foi aí que ouvi uma frase dita pelo Hugo Belchior que nunca mais me saiu da cabeça… algo do género… meus amigos quem acha que para ter um negócio próprio de sucesso basta ser um bom técnico está muito enganado. Para mim foi um choque ouvir aquelas palavras e confesso que na altura até discordei. Não tinha claramente maturidade pessoal nem profissional para interpretar devidamente aquela mensagem. Estava a investir tanto na minha formação profissional, tinha conseguido iniciar a minha atividade profissional que até estava a correr bastante bem, tinha agenda cheia, começava a ser reconhecido na comunidade pelo meu trabalho e isso não seria suficiente? Pois não!

Para sair do ginásio e passar para o espaço onde estou agora, de uma forma sucinta foi necessário: elaborar um plano de negócio que explicasse detalhadamente o meu projeto e que foi indispensável para a aprovação financiamento bancário necessário; criar a empresa (após o estudo feito pelo meu contabilista concluímos que no meu caso seria a melhor opção); selecionar o espaço; estudar o enquadramento legal (Entidade Reguladora da Saúde, Licenciamento Camarário, Higiene e Segurança no Trabalho, Seguros…), selecionar e adquirir os equipamentos, selecionar a equipa.

A carteira de clientes que já tinha do ginásio, permitiu que no dia em que abri a porta do novo espaço já tivesse a minha agenda preenchida, o que foi uma mais valia.

Mas o Fisioterapeuta André Viegas queria dar lugar à marca Fisio André Viegas… apesar de ter planeado a mudança de espaço não tinha competências pessoais, de gestão, de liderança, de marketing para fazer essa transição de um projeto individual para um projeto mais de uma organização ou marca.

Hoje tenho clareza de pensamento suficiente para perceber que o processo foi muito guiado pela minha vontade de não estagnar e de fazer sempre mais e melhor mas não foi preparado do ponto de vista empresarial para esse salto.

Logo a começar pelo nome. O meu nome ao qual as pessoas começaram a reconhecer valor mas que por si só constituiu uma dificuldade e um entrave. As pessoas conheciam o nome do André, queriam ser vistas pelo André e tudo girava à volta do André. Agenda cada vez mais preenchida, semanas atrás de semanas com 45 a 50h de trabalho técnico e sem tempo para pensar e gerir o meu negócio e com uma influência grande de mais nos resultados financeiros da empresa.

Tinha constituído uma empresa para fazer crescer o meu negócio mas não tinha tempo para cuidar dele, cuidar da equipa e trabalhar para ele.

Foram 4 anos de um ritmo alucinante, de agenda cheia mas de resultados contabilísticos pouco interessantes e sem grande crescimento do ponto de vista empresarial o que me deixava com sentimentos ambíguos – tenho muito trabalho, adoro o que faço, mas como negócio deixa muito a desejar.

Chegamos a Março de 2020 e uma epidemia fez-me parar, e à semelhança de tantos outros colegas, encerrar durante 6 semanas. O tempo que nunca tinha tido nestes anos e que usei da melhor forma. 6 semanas dedicadas ao estudo do meu negócio, fazer contas, analisar resultados contabilísticos, perceber o que estava mal, o que tinha de fazer diferente… Perceber que conhecimentos na área da gestão, finanças, recursos humanos, liderança, comunicação, marketing são sem dúvida peças e alavancas chave para o crescimento empresarial.

Passei a investir em formação nestas áreas, a entrar em grupos de mentoria, como o pioneiro Fisio Launch, com pessoas que sentiam e estavam a passar por desafios similares e que me ajudaram a crescer imenso em termos pessoais e profissionais.

Fiz mais nos últimos 12 meses pela minha empresa que nos 4 anteriores. Hoje, apesar de ainda ter a maioria da minha mancha horária com os sapatos do fisioterapeuta técnico, já consigo ter blocos de tempo em que dedico aos sapatos do gestor e em que deixo de trabalhar no meu negócio para trabalhar o rumo do próprio negócio.

Tenho hoje, um controlo financeiro diário da empresa, equipa alinhada, processos definidos, estratégia de marketing e de comunicação, sei onde estou, para onde quero ir e com quem ir.

Resiliência é uma palavra chave neste processo, processo que não é para todas as pessoas, processo que não é retilíneo, tem curvas, obstáculos mas que vale a pena. Garantidamente temos mais retorno, mais reconhecimento, mais responsabilidade, mais confiança das pessoas.

If you can dream it, you can do it

Artigo escrito para a Bwizer Magazine – 14ª edição da revista. Clique aqui para ver a revista.

André Viegas, Fisioterapeuta