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  • fisioandreviegas

Kit básico de sobrevivência às birras

Se é pai ou mãe de uma criança entre os 18 meses e os 4 anos, parabéns! Você é um dos felizes contemplados com o grande prémio das birras mais ou menos frequentes, para comer, vestir, tomar banho, agarrar um objeto, dormir, interromper uma atividade, em resumo... por tudo e por nada!

Se é pai ou mãe de uma criança mais pequena, não desanime, também chegará a sua vez!

As birras são um comportamento típico desta fase do desenvolvimento. Algumas podem ser prevenidas com algum cuidado e antecipação, mas outras são inevitáveis.


Há dois tipos principais de birra:

  1. Aquela que resulta da própria incapacidade da criança para conseguir fazer determinada coisa, devido à sua pouca idade; de sensações fisiológicas ou da sobrecarga de estímulos sensoriais, isto é, uma birra sobre a qual a criança não tem qualquer controlo.

  2. Aquela que resulta de uma luta de poder para conseguir fazer as coisas à sua vontade e que cessa imediatamente quando a criança obtém o que quer, ou seja, uma birra sobre a qual a criança tem domínio.


Quando as crianças estão cansadas, com fome, a lidar com mudanças ou excitadas podem sentir-se frustradas ou fartas e explodem (estas são birras do primeiro tipo).

Quando a criança tenta manipular alguém de forma a obter o que quer, gritando, batendo com os pés no chão, fazendo um grande drama estamos perante uma birra do segundo tipo.


As birras são dos comportamentos que podem causar mais raiva, confusão, embaraço e frustração, tanto aos pais como aos filhos. Obrigam a uma grande paciência e autocontrolo, que por vezes é bastante difícil de gerir.

As birras fazem parte do processo de formação da Identidade.


Nesta idade (2 aos 4 anos) estão a constituir-se os sentimentos de identidade, associados a uma vontade própria que começa a manifestar-se. De notar que é por volta dos 3 anos que as crianças começam a referir-se a elas próprias na 1ª pessoa “eu gosto”, “eu quero”, “eu fiz”; até essa idade habitualmente referem-se a si na 3ª pessoa “a Maria fez”, “o João quer”.

Esta construção inicia-se numa fase em que, sendo as crianças ainda tão pequenas e dependentes, necessariamente, obrigará à vivência de várias frustrações. Querem mexer em tudo, chegar a todos os lados, fazer tudo e as suas próprias limitações físicas impedem-nas. Por outro lado, muitas vezes querem pedir algo e não podem porque a sua linguagem ainda é escassa e falta-lhes as palavras para se expressarem. E como se isto não fosse o suficiente, ainda têm desejos que não podem ser consentidos ou não são convenientes, não deixando alternativa aos pais que não seja impedir que façam ou obtenham uma quantidade de coisas! Tudo tem o seu tempo, mas ainda não entendem. Não possuem noções temporais que lhes permitam lidar com a frustração sabendo esperar para concretizar os seus desejos.

As birras estão, assim, relacionadas com processos de autonomização próprios destas idades.


É importante que os pais se lembrem que a criança não está a ser má. Está apenas a ser criança.


A função dos pais é traçar os limites e a função da criança é testá-los com toda a força, para saber se é mesmo assim.


“Onde é o botão para desligar?”


Em primeiro lugar, quando uma criança “explode” numa birra, isto significa que ela perdeu o controlo das suas emoções. Assim, a principal tarefa dos pais deve ser auxilia-la a recuperar o seu auto-domínio.

Para tanto, a primeira coisa a fazer é respirar fundo e encontrarmos, nós próprios, o nosso

autocontrolo, pois somos os seus principais modelos para a aprendizagem desta tarefa. De

seguida, identificar de que tipo de birra se trata.


Caso se trate de uma birra do primeiro tipo, é importante responder à necessidade da criança. Se está cansada, será bom retira-la para um ambiente mais calmo para descansar, se tem fome, é importante que possa comer alguma coisa; se está frustrada com uma incapacidade sua ou tensa, ofereça-lhe colo e conforto. Sentá-la ao colo e embalá-la em silêncio ou cantando uma canção calmante pode devolver-lhe a serenidade. Isto não é encorajar a birra, é apenas responder à necessidade latente que a desencadeou: conforto e segurança.


Caso se trate de uma birra do segundo tipo, então é importante que a criança perceba que a estratégia da birra não resultará na obtenção do que quer e pode ser necessário a utilização de algumas estratégias disciplinares.


Ignorar e A Regra da Atenção


Retirar a atenção ou ignorar o comportamento baseia-se numa regra simples: a regra da atenção, que dispõe que o comportamento das crianças é alimentado pela atenção que recebe dos outros, seja ela atenção positiva (elogios, sorrisos, mimos, etc.) ou atenção negativa (ralhetes, sermões, “má cara”, etc.).

Retirar a atenção à birra, ignorando-a, fará com que a criança tenha de ajustar o seu comportamento para poder ter de novo aquilo que pretende - a atenção dos pais.

Quando os pais começam a ignorar o mau comportamento, podem esperar que ele se intensifique durante uns momentos - a criança tende a aumentar o volume de som para se fazer ouvir. Mas se os pais se mantiverem firmes a ignorar, rapidamente mudará de comportamento.



Ignorar não é fazer de conta que não se passa nada, é uma estratégia disciplinar consciente, com uma eficácia comprovada e que modela uma resposta tranquila e assertiva ao descontrolo e à frustração.

Quando não é possível ignorar, como descrito no quadro anterior, pode ser utilizada a estratégia do Tempo de Pausa, para acalmar e pensar.

O Tempo de Pausa é uma estratégia disciplinar que consiste em colocar a criança num local previamente escolhido para esse efeito (uma cadeira, sofá, parque, almofada), dizendo-lhe que se não parar de fazer birra, terá de ir acalmar-se para aquele local. O Tempo de Pausa é controlado pelos pais -a criança vai para lá e só sai quando os pais mandam. Deve permanecer aí até se acalmar e não lhe deve ser dada atenção enquanto não se acalmar. O Tempo de Pausa deve ter a duração máxima, em minutos, igual à idade da criança (4 anos = 4 minutos). Algumas crianças podem tornar-se muito resistentes ao Tempo de Pausa. Por isso, é importante que os pais introduzam o Tempo de Pausa não como “castigo”, mas como uma oportunidade para a criança ir respirar e acalmar. Os pais podem mesmo modelar este comportamento, utilizando linguagem como “estou a ficar irritada, preciso de uma pausa, preciso de respirar” e podem eles próprios afastarem-se e fazerem o seu tempo de pausa.

Em alternativa, caso a criança se mostre muito resistente à estratégia do Tempo de Pausa, e porque esta não deve culminar numa luta entre pais e filhos, pode dizer-se à criança que, caso não pare, perderá privilégios (por exemplo, não pode ver televisão nessa noite, vai para a cama logo após o jantar, perde o acesso ao tablet nesse dia...).


Apostar na antecipação!


Os pais conhecem os seus filhos melhor do que ninguém, por isso, sabem em que circunstâncias as birras são mais prováveis.

Se a criança está cansada, com sono, com fome, num ambiente com muitos estímulos, pode ser útil retirá-la para um ambiente mais calmo ou dar-lhe a possibilidade de descansar; se a criança é muito enérgica e ativa, são de evitar longas idas ao supermercado ou almoços extensos em restaurantes; avisos prévios sobre o comportamento esperado e suas consequências são também eficazes; partilhe algumas decisões com a criança (que fruta quer comer ao jantar, que quantidade de comida se põe no prato, que brinquedo quer levar consigo...). Redirecione a atenção da criança para outra coisa igualmente agradável e que ela possa fazer, em alternativa àquela que não pode (“Não podes levar o puzzle para não perder as peças, mas podes levar o teu carro dos bombeiros!”). Nas birras que resultam da criança querer algo que não pode ter, redirecionar a atenção é extremamente eficaz, sobretudo com as crianças mais novas.

Uma vez decidido o que vai fazer, mantenha-se firme e não ceda, mesmo que a meio até se aperceba de que poderia ceder. Se ceder, estará a reforçar futuras birras.

Decida! Se o seu filho está a fazer birra para pedir uma coisa que lhe pode dar, diga-lhe que não precisa de falar assim e que terá o que quer se pedir com bons modos; se não pode fazer-lhe a vontade, então mantenha-se firme. Se desistir, a criança aprenderá que só tem de gritar um pouco mais alto e durante mais tempo para ter o que quer.

Respire fundo! Todos os pais passam por alguma situação de birras em público, em que lhe vai apetecer cobrar bilhetes à assistência, enquanto morre de vergonha com os berros e pontapés da criança. Se puder, tenha em mente que todos sabem que se trata de uma criança e não ceda a pensamentos que ponham em causa a sua competência como educador. Isto vai ajudá-lo a libertar-se dos constrangimentos e a tomar as medidas necessárias.


Em suma, perante uma birra tenha em mente o kit básico de sobrevivência às birras: acalme-se primeiro e identifique a necessidade subjacente à birra. Responda à necessidade de forma calma e assertiva. Se quer atenção, ensine-lhe que terá atenção assim que se comportar de outra forma; se precisa de conforto, conforte-a; se quer algo que não pode ter, explique-lhe que não pode ser e ofereça alternativas. Se conseguir manter a calma, tudo ficará bem e se resolverá mais rapidamente.



Ana Raquel Ortet, Psicóloga

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