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  • fisioandreviegas

“Parece que estamos sempre a ter a mesma discussão e não saímos do mesmo sítio!"

Passar por momentos de discussão e desentendimento é perfeitamente normal entre um casal e com os/as filhos/as. Isso é sinónimo de que as pessoas estão em relação, comunicam, expõem e debatem as suas ideias.

Não é uma ou outra discussão ocasional entre o casal que enfraquece a relação ou perturba as crianças, mas sim todo um padrão de comportamento e de comunicação que passa a ser aprendido e que pode influenciá-los/as.

Comunicar implica escutar o outro e saber expressar os nossos pensamentos e sentimentos de forma assertiva, isto é, de forma clara, objetiva e sem intenção de magoar ou ferir a outra pessoa.

Quando existe uma discussão, ela surge a partir de diferentes pontos de vista sobre a mesma coisa. Isso não quer dizer que uma pessoa está certa e a outra está errada.

Mas, geralmente, é isto que assumimos quando partimos para uma discussão. E não raramente, as discussões sobem de tom e escalam. Trazemos para esse momento todas as situações passadas que nos feriram, revivemos esses sentimentos, acusamos o outro da nossa infelicidade e, invariavelmente, bloqueemos o processo de escuta. A certa altura já não estamos a ouvir o outro, mas estamos, mentalmente, em busca de argumentos para o contrapor e lhe provar que está errado.


Então, para que possamos evitar discussões tóxicas, daquelas que acabam por aumentar o ressentimento e abrir um fosso cada vez maior entre as pessoas, a primeira coisa a ter em mente é reconhecer que o outro está a olhar para a situação a partir de um ponto de vista completamente diferente. Assim, o mais importante a fazer será tentar perceber exatamente como é que o outro está a ver a situação.


Aprender a fazer uma Escuta Ativa ou Empática pode fazer a diferença para resgatar uma relação e mudar os padrões de comunicação.


A Escuta Ativa é um tipo de escuta intencional, em que focamos toda a nossa atenção no que a outra pessoa está a dizer, sem emitir qualquer juízo de valor e sem interromper. Muito frequentemente nós interrompemos os outros para emitir a nossa opinião, contra-argumentar, criticar ou dar conselhos, em vez de deixar os nossos interlocutores dizerem o que realmente querem e necessitam. Ao fazer isto sistematicamente, ou o outro desiste da sua comunicação, ou fala mais alto na tentativa de se fazer ouvir.


Escuta Ativa: como se faz?

• Olhos nos olhos: Manter o contacto visual e desligar-se de qualquer outra atividade que esteja a fazer. Antes de iniciar um diálogo (que se quer produtivo) é preciso ter em consideração que nem todos os momentos são oportunos, por exemplo, se a pessoa está envolvida num trabalho urgente ou a ver o programa de TV preferido (importante no caso de crianças/adolescentes).

• Escuto o teu raciocínio: Deixar a outra pessoa acabar de falar, antes de responder.

• Sinto o que tu sentes: Prestar atenção às ideias e sentimentos do interlocutor.

Escuta Ativa é ouvir até o que não é dito por palavras, mas que está a ser comunicado pelo olhar, pela postura corporal, pelas emoções que estão presentes no discurso.

• “Explica-me melhor o que quiseste dizer com...”: Quando a pessoa termina de falar, mostrar interesse por perceber melhor, formulando questões.

• “Então, nesta situação tu pensaste que... compreendi corretamente?”: Dar algum feedback do que percebeu, resumindo a informação e depois repetindo por palavras suas o conteúdo e os sentimentos do interlocutor. É importante que não haja qualquer tipo de acusação. Se as palavras do outro o deixaram zangado, triste, ansioso ou com qualquer emoção que gerou incómodo, é importante que reconheça que essas emoções presentes são suas, não responsabilizando o outro por elas.

Reconhecer que essas emoções emergem perante certos assuntos, é uma grande oportunidade para o autoconhecimento:de onde vem esta emoção? Que necessidades minhas não estão satisfeitas? O que preciso de perceber dentro de mim?

• “Há mais alguma coisa que queiras acrescentar?”: Incentivar a outra pessoa a continuar a falar, caso deseje.

• “Entendo o que queres dizer.” Mesmo que o seu ponto de vista seja completamente diferente do outro, validar o ponto de vista do outro e admitir que ele pode ter outra forma de ver a questão, ajuda a reduzir o fosso de opiniões. O objetivo da comunicação não é um duelo para “ter razão”. Escutar empaticamente pode ajudar a encontrar pontos em comum.


Quando as relações estão muito desgastadas por discussões constantes, pode tornar-se difícil olhar para o outro como uma pessoa, contemplando as suas necessidades.


O que é interessante é que toda a comunicação é uma expressão de necessidades. A do outro e a nossa.

Esta semana deixamos-lhe o desafio de olhar com olhos de recém-nascido para aquela pessoa com quem está constantemente em conflito. Faça de conta que acabou de a conhecer e escute-a empaticamente, ativamente. Depois, se quiser, conte-nos como foi!



Ana Raquel Ortet, Psicóloga

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