Socorro! O meu filho é gago?

Por volta dos 3 anos, muitas crianças começam a falar com hesitaçõesrepetem palavras e sílabas, atrapalhando o discurso entre som e silêncio, numa tentativa de se adaptarem às exigências de comunicação do mundo que as rodeia.

E quase podemos adivinhar os olhos dos pais arregalados enquanto assistem desesperados ao gaguejar dos filhos… Entretanto já perderam o fio condutor da conversa, a ansiedade aumenta e os alarmes soam: “Socorro!! Ele é gago!!!”

Mas será que é mesmo? Afinal, todos nós temos hesitações no nosso discurso, com frequência se estivermos mais cansados ou debilitados, e isso não significa que sejamos gagos.

gaguez fisiológica, aquela que acontece por volta dos 3 anos, é uma gaguez transitória, que na maioria das vezes, desaparece ao fim de alguns meses.

Quando a gaguez se revela crónica, normalmente, existem outros fatores associados, que embora possam ser indicadores, cada um deles, por si só, não fazem o diagnóstico. Entre esses fatores estão:

  • Antecedentes familiares – a existência de um familiar gago;
  • Idade – se as alterações persistirem além dos 4 anos, as probabilidades de recuperação espontânea diminuem;
  • Género – a percentagem de homens gagos é 4 vezes superior relativamente à percentagem de mulheres gagas;
  • Expressão Corporal – a fala, acompanhada de tensão muscular e tiques, mais ou menos intensos, é um sinal a ter em atenção;
  • Fala e Linguagem – alterações no desenvolvimento da linguagem e articulação verbal, são propícias a hesitações e compassos de espera na fala;
  • Comportamento – a timidez e a insegurança a expressar-se podem ser fatores relevantes.

Então o que podemos fazer se nos apercebermos que o nosso filho de 3 anos está a passar por uma gaguez transitória?

  1. Seja paciente. Embora seja com a maior tendência, não devemos interromper, nem completar palavras, frases, o seu discurso e o seu esforço para construir a sua fala;
  2. Seja o melhor modelo. Se falar para o seu filho de forma serena e descontraída, ele irá tentar fazê-lo da mesma forma.
  3. Ponha a máscara da tranquilidade.  Mesmo que esteja a desesperar com a situação, não lho mostre! São proibidas as expressões esquisitas, a respiração forçada, os risinhos nervosos, bateres de pé e estalar de dedos. Mantenha a mesma expressão quando o está a ouvir, quer ele gagueje o não. A sua ansiedade é sua, não a divida com o seu filho!
  4. Seja seu . Olhe para ele quando fala, olhos nos olhos, valorize o que ele tem para dizer, escute o conteúdo daquilo que ele tem para lhe dizer. A mensagem dele pode não passar de uma gota de água para si mas perceber que você o escuta, pode significar a embarcação que lhe dará coragem para atravessar todo um oceano.
  5. Reforço positivo proibido.  O reforço positivo é uma ferramenta valiosa em inúmeras situações, que usamos e devemos usar para construir a autoestima dos nossos filhos e dar-lhes a confiança necessária para os desafios do dia a dia, mas nesta situação muito específica, não devemos utilizá-la. Devemos valorizar o que diz, em detrimento da forma como o diz. Não significa isto, que a gaguez seja assunto tabu e se a criança assim o desejar, devemos conversar sobre isso, o que não devemos fazer é enfatizar o assunto tornando-o um problema.
  6. Proporcione experiências facilitadoras. Incentive-o com experiência em que a fala seja mais fácil como cantar, recitar poemas e lenga-lengas, histórias com vozes, imitações, etc..
  7. Deixe de lado os comentários. Muitas vezes queremos ajudar com frases como: “vais conseguir dizer”, “tem calma”, “tens que pensar antes de falar”, “já sei o que queres, não é preciso esforçares-te mais”, mas a verdade é que nesta situação específica, a criança nem sempre tem capacidade para falar como esperamos e, este tipo de comentários podem revelar-se bastante negativos, contrariamente às nossas intenções.

gaguez fisiológica é temporária. Mas, caso desta fase persistir, pode e deve procurar aconselhar-se com um terapeuta da fala mas sobretudo deve manter calma. Cerca de 1% da população mundial é gaga e isso não é uma catástrofe! Que o digam o Bruce Willis, a Julia Roberts e também o diria Winston Churchill ou o nosso saudoso Raúl Solnado!

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Liliana Costa, Terapeuta da Fala